RESENHA: A Garota no Trem

A Garota no Trem - Paula Hawkins

A primeira resenha do Book Haul de Abril é do livro “A garota no trem”, escrito pela Paula Hawkins e com publicação nacional pela Editora Record.

Nunca julgue o livro pela capa. Eu particularmente nunca gostei de livros com capas de filmes, sempre prefiro a arte original. Mas por um bom desconto consegui adquiri o livro que todos falavam no fim do ano passado como “o thriller do ano”. Com uma adaptação relativamente recente para o cinema, “A Garota no Trem”, ganhou mais fama mundial como um suspense cheio de coisas pequenas para você notar.

Eu nunca tinha lido um livro desse gênero. Apesar de que a proposta do que é ser um livro thriller cheio de suspense me cativa, nunca tive livros desses na estante. Talvez porque nem sempre sejam moda e peguem fácil no gosto das pessoas.

“A garota no trem” tem um trama misterioso desde o início. Apesar de uma apresentação um tanto quando boba, da garota que viaja de trem todos os dias observando a vida dos casais que moram ao lado ferrovia, o trama se desenrola de uma forma incrível.

Rachel, a protagonista, é uma garota simples que vive com a amiga numa cidade próxima a Londres e pega seu trem todos os dias para trabalhar num jornal na grande metrópole. Quer dizer, pega o trem todos os dias para fingir que trabalha no jornal.

Rachel é alcoólatra e por conta disso perdeu seu emprego no jornal, mas como uma forma de camuflar a verdade, prefere sair de casa todas as manhãs e passear pela biblioteca de Londres fazendo sua amiga pensar que ela está entrando nos trilhos – trocadilho – e que a bebida foi deixada para trás.

O que ninguém sabe é que Rachel vive diversos problemas. Além do vício, há alguns anos atrás Rachel perdeu aquele que ela julgava ser como o grande amor de sua vida. Tom a traiu com uma vizinha, Anna, que logo ficou grávida e então se casaram. Tudo isso debaixo do teto da casa que moravam sem ela perceber.

Além disso, Rachel tentou por diversas vezes engravidas e nunca conseguiu. Ela e o namorado pagaram diversos tratamentos e nunca conseguiam. O maior desejo da personagem era dar um filho a ele e acha que isso foi um dos principais motivos que o levou a traí-la e ter um filho com outra.

O fato é que Rachel saiu da casa que construiu, a deixando para seu ex-namorado com a atual esposa/amante e foi morar com sua amiga. Enquanto ela passeia pela linha de trem como em todas as manhãs, fingindo ir trabalhar com uma garrafa de bebida entre as pernas e um semblante terrível, ela gosta de observar um determinado casal que mora ao lado dos trilhos. São Megan e Scott.

Ela não sabe o nome deles, ela não sabe de onde são, nem se são felizes. Todos os dias ao passar em frente à casa número 15, Rachel se debruça sobre a janela observando como os dois vivem juntos e muito provavelmente são um casal feliz. Eles tem tudo o que ela gostaria de ter. Um lar, um marido, ser uma boa esposa, uma casa bem grande… Todos os sonhos de Rachel estão personificados alí. Naquele casal de desconhecidos.

O tempo passa e Rachel gosta tanto de observá-los que começa a dar nomes imaginários, imaginar cenas deles dois dentro de casa, como deve ser a relação deles. Uma coisa bem solitária. A pobre Rachel se vê encantada com o casal, até que a cena que ela menos esperava acontece. Numa manhã, ainda nos trilhos, Rachel vê Megan beijando um outro homem na varanda de casa. Não podia ser! Eles eram o casal perfeito, não eram? Eles estavam todas as manhãs na varanda de casa, eles se amavam, eles sorriam um para o outro. Não tem como ela o estar traindo. Ela estava fazendo com Scott o mesmo que seu ex-namorado fez com ela. Que absurdo!

Rachel se sente uma tola. Mirabolou mil e uma coisas sobre o casal. Mas a verdade é que eles eram desconhecidos que ela via pela janela todas as manhãs. Até que dias depois, a mulher some. Misteriosamente. Rachel, é claro, quer o máximo possível descobrir o que aconteceu com ela, afinal, apesar de desconhecida, Rachel gostava dela de uma certa forma depois de tanto observá-la.

O suspense do livro começa a partir do momento em que as peças do desaparecimento precisam ser colocadas juntas e Rachel, que cede várias vezes ao vício da bebida, não lembra de nada do que acontece enquanto está bêbada. Até mesmo Tom, seu ex-namorado, pede para que fique longe do caso de Megan.

Flashs começam a vir em sua mente. Uma mulher de vestido azul. Uma chave de carro. Dor em sua cabeça. Sangue em sua boca. Rachel caída em um beco escuro sob chuva. Nada faz sentido até que ela sabe que foi naquele beco, naquela mesma noite, que Megan foi vista pela última vez. Ela estava envolvida no desaparecimento de Megan, mas não sabia como. O efeito da bebida não permitia que lembrasse.

Tentando se manter sóbria e sem bebida o máximo possível, Rachel vai atrás de cada um dos flashs momentâneos que tem para montar o quebra-cabeça. Mas infelizmente Megan, é encontrada morta. Tudo fica muito pior. Rachel estava envolvida em um assassinato. Mas algo está faltando. Algo não faz sentido. Rachel matou Megan em algum momento de insanidade? Por quê? Se Rachel não o fez, então quem o fez? Por que as duas estavam juntas naquele beco a noite? Quem machucou Rachel foi a mesma pessoa que matou Megan? Onde estava o marido de Megan, Scott, no momento de sua morte? Ele seria capaz de matar Megan ao descobrir a traição? Quem era o homem que Megan estava beijando outro dia? Teria sido ele o assassino? Porque Tom, que até então só a desprezou, se preocupava pedindo para que não se envolvesse no caso? Ele sabia de algo?

Eram muitas perguntas e o desenrolar do livro, contado através de uma espécie de cartas datadas e assinadas por cada personagem é muito intenso. Apesar das idas e vindas na linha do tempo, o livro ainda assim é bem fácil de entender.

O final é surpreendente. O detalhe que todos deixamos passar revela todo o mistério. Além disso, gostei de como cada personagem foi construído. A autora fala da vida de cada personagem de uma forma bem íntima e mostra que não só Rachel brilha no livro assim como todo o mistério não vive só ao redor do suposto assassinato de Megan.

Existem motivos para tudo. Porque Tom traiu Rachel com Anna. Porque Rachel se tornou alcoólatra. Porque Megan traiu Scott. Porque Rachel nunca lembra de nada quando termina o efeito da bebida e não acredita no que as pessoas dizem que ela fez.

“A garota no trem” despertou toda a vontade que eu tinha de ler livros de suspense e muito provavelmente outros virão. A partir do momento em que Megan desaparece, toda a narrativa é muito intensa, a busca por detalhes para a solução do caso é empolgante e aquela sensação de que você está perdendo algo nos detalhes é perturbadora. Eu devorei o livro em 24 horas.

A adaptação em filme ficou muito boa, com pequenas alterações. Acredito que pelo livro ser pequeno, conseguiram reproduzir com fidelidade. Rachel é fielmente interpretada, apesar de que ainda acho que por vezes exageraram no nível de embriaguez, e a mudança do cenário de Londres para Nova York, não é tão incômoda para o espectador.

Acho que a partir de agora irei criar mil e uma teorias para todos os livros de suspense que ainda irei ler, mas com certeza, “A garota no trem” ficará no meu top 10 de thrillers emocionantes por um bom tempo.

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